Expoente da Medicina Tropical e pesquisador emérito da Fiocruz, doutor José Rodrigues Coura completa 90 anos

Fonte: Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz

Em uma carreira que continua ativa no auge dos seus 90 anos, comemorados no dia 15 de junho de 2017, o pesquisador emérito da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e chefe do Laboratório de Doenças Parasitárias do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), José Rodrigues Coura acumula publicações que se tornaram referência na área de doenças infecciosas e premiações que reconhecem a relevância do seu trabalho para a medicina e a ciência. Formador de recursos humanos: esta é sua característica peculiar. Já são mais de 200 mestres e doutores, além de incontáveis estudantes de graduação que estagiaram com ele ao longo desses anos. Sua trajetória também acumula contribuições fundamentais para a história do IOC e da Fiocruz. 

Mais de uma centena de pessoas compareceram na tarde de quarta-feira, 14/06, ao encontro 'José Rodrigues Coura 90 anos: uma vida para a ciência e o ensino', que marcou a celebração de seu aniversário. 

Confira nas reportagens especiais do IOC detalhes, curiosidades e facetas da obra e vida do professor Coura, como é carinhosamente chamado num justo reconhecimento ao seu empenho no Ensino.

 

 

“A vida bem preenchida torna-se longa”

Pesquisador consagrado, ao longo de seus 90 anos José Rodrigues Coura soma uma trajetória de superação pessoal e de êxitos na vida acadêmica

 

A frase do célebre Leonardo da Vinci ganha plenitude quando esbarra no percurso do pesquisador José Rodrigues Coura, que completa 90 anos no dia 15 de junho de 2017. Nascido em Taperoá, pequena cidade no sertão do Cariri, na Paraíba, o filho de Lupércio Rodrigues Coura e Ercília Coura, na infância, dividia as brincadeiras com outro ilustre filho de Taperoá: o escritor Ariano Suassuna. Migrou para o Rio de Janeiro em agosto de 1946. O objetivo? Dar continuidade aos estudos, já que a cidade não dispunha de estrutura escolar compatível com as expectativas do jovem. De setembro a dezembro daquele ano, trabalhou como auxiliar de escritório na Standard Oil (hoje Esso do Brasil) para custear os estudos, até ser convocado para o Exército, em 1947. No ano seguinte, matriculou-se no curso noturno do Colégio Frederico Ribeiro. Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), antiga Universidade do Brasil, em 1952. Ali, conheceu a colega de classe Léa Ferreira Camillo Coura, com quem se casaria e teria três filhos: Evandro Cesar, Lúcia e Luciana Maria. Hoje, são três netos.

Em dezembro de 1957, concluiu a graduação em Medicina. Era o início de uma carreira promissora e premiada na área da saúde. A partir daí, vieram a especialização em clínica médica e doenças infecciosas e parasitárias, na Universidade de Londres, a livre docência e o doutorado em doenças infecciosas e parasitárias, na UFRJ. Por fim, o pós-doutorado nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês). Ingressou como instrutor de ensino na disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da UFRJ, onde exerceu, em sequência, os cargos de professor assistente, professor adjunto, professor titular e chefe do Departamento de Medicina Preventiva, do qual se aposentou, voluntariamente, em 1996.

 Posse na Academia Nacional de Medicina, em 1978. Acervo pessoal.

A chegada ao Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) ocorreu de forma gradativa. Das visitas à Biblioteca de Manguinhos, na década de 1950, ao convite do Ministério da Saúde para realizar um diagnóstico da Fiocruz, em 1972, o ingresso efetivo aconteceu apenas sete anos depois. Em 1979, o então professor titular da UFRJ recebeu o convite para assumir a Vice-presidência de Pesquisa da Fundação e a diretoria do IOC – cargos que, à época, eram acumulados [Clique aqui para conhecer mais sobre os encontros de Coura com Manguinhos].

O pesquisador esteve à frente do Instituto, pela segunda vez, em 1997, quando a comunidade do IOC o elegeu diretor para gestão 1997-2001. Foi reconhecido como pesquisador emérito da Fundação, em 2006. Chefe do Laboratório de Doenças Parasitárias do IOC, professor Coura, como costuma ser chamado por colegas de profissão, alunos e ex-alunos, permanece em atividade. Publicou mais de 260 trabalhos em revistas nacionais e internacionais, além de haver participado de centenas de trabalhos apresentados em congressos e reuniões científicas. Retrato do afinco com que se dedica à área das doenças infecciosas e parasitárias, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, em 1962 – instituição que presidiu de 1973 a 1975.

Em seu gabinete de trabalho, Coura exibe um extenso acervo de prêmios, que vai da Comenda Sérgio Arouca de Medicina e Saúde Pública, concedida pelo Conselho Federal de Medicina - CFM (2014), passando pela condecoração Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (2014), mais alta insígnia concedida pela Presidência da República; chegando ao Prêmio Fundação Conrado Wessel, uma espécie de ‘Nobel brasileiro’ que reconhece profissionais por sua excelência científica aliada à eficácia social. Além disso, Coura também acumula os títulos de professor honoris causa das Universidades Federais da Paraíba, Ceará e Piauí pela atuação nos programas de Pós-graduação, e de professor emérito da Faculdade de Medicina de Campos por ter sido seu fundador.

 Recebendo o Prêmio Fundação Conrado Wessel, uma espécie de ‘Nobel brasileiro’ que reconhece profissionais por sua excelência científica aliada à eficácia social. Acervo pessoal

O cientista contribuiu para a formação de centenas de mestres e doutores e, com isso, ajudou a expandir o número de líderes de ensino e pesquisa Brasil afora [Clique aqui para conhecer mais sobre o legado do cientista no Ensino]. As prateleiras em seu gabinete de trabalho, repletas de teses e dissertações de estudantes orientados por ele, são provas desta contribuição. Além disso, a sua dedicação e exigência presentes na atividade de docência tiveram papel relevante na excelência acadêmica conquistada pelos Programas de Pós-graduação em Biologia Parasitária e em Medicina Tropical do IOC, ambos criados por ele. A idealização, manutenção e o aprimoramento desses cursos tiveram caráter prioritário no período em que esteve à frente da Direção do Instituto e da Vice-Presidência de Pesquisa da Fundação.

E o legado de Coura não para por aí. Em sua primeira gestão no IOC, recuperou a revista ‘Memórias do Instituto Oswaldo Cruz’, que hoje é a publicação científica brasileira mais acessada na área de ciências biológica. Durante uma década, ele compôs o corpo editorial do periódico.

Atualmente, José Rodrigues Coura coordena uma equipe de 06 pesquisadores e segue com o trabalho de formador de novos cientistas por meio da orientação de alunos dos Programas de Pós-graduação do Instituto. Segundo Angela Junqueira, que atua como pesquisadora no Laboratório chefiado por Coura, a relação pessoal e profissional dele com os demais colegas é sempre enriquecedora. “O Dr. Coura é um homem de extrema coragem. Lembro de um trabalho de campo nos igarapés amazônicos em que fiquei preocupada com os perigos da região, e ele chegou para mim e disse: para salvar um de vocês, sou capaz de qualquer coisa”, elogiou.

 Em trabalho de campo sobre doença Chagas (ao lado de piaçavas, local onde o barbeiro, inseto transmissor da doença, se esconde). Acervo pessoal

Angela e Coura se conhecem desde o tempo em que a pesquisadora estava na graduação. A amizade de longa data faz com que a colega de laboratório guarde na memória lições de vida dadas pelo cientista. “Era o dia de ele entregar o cargo de diretor do IOC e de vice-presidente de Pesquisa da Fiocruz. Eu estava no laboratório quando ele entrou e a gente começou a conversar. Recordo-me de perguntá-lo sobre qual era sensação de deixar a diretoria. Ele, com muita tranquilidade, respondeu: as pessoas devem estar acima do cargo que ocupam. Quando entrei aqui, a única coisa que tinha certeza de que me pertencia, era o meu jaleco. Tudo na vida é transitório, Angela”, contou emocionada.

 

Pai dedicado

A intensa produção científica não impediu professor Coura de exercer, com excelência, outra função: a paternidade. Quem afirma é seu primogênito, Evandro Cesar. “Meu pai sempre foi uma pessoa apaixonada pelo trabalho e isso me inspirou muito. Mesmo com toda a sua dedicação à ciência, ele esteve presente dando força e apoio às minhas escolhas”, reconheceu. Perguntado sobre que mensagem de aniversário deixaria para o pai, Evandro não titubeou: “Parabéns pela brilhante carreira e pela persistência em seguir sua trajetória na área da saúde, mesmo diante de tantas adversidades. Você serviu de exemplo para mim e minhas irmãs. O meu sucesso pessoal e profissional, devo boa parte a você”, declarou.

 

Uma conversa em três atos

Para homenagear o ganhador dos prêmios ‘Jabuti’ e ‘Conrado Wessel (FCW) de Medicina’, o Instituto Oswaldo Cruz realizou, no dia 14 de junho, o evento ‘José Rodrigues Coura, 90 anos: uma vida para a ciência e o ensino’. Com uma proposta interativa, a atividade permitiu um diálogo próximo entre os participantes e o homenageado.

 Autografando o livro 'Dinâmica das Doenças Infecciosas e Parasitárias', que conquistou o segundo lugar no Prêmio Jabuti de 2006. Acervo pessoal

 

Reportagem: Kadu Cayres
Edição: Raquel Aguiar

 

  • jun 14 2017