A arte de encantar pela Ciência

Docentes, alunos de graduação e pós-graduação do câmpus de Botucatu [da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho] desenvolvem atividades de popularização científica para o Ensino Básico e demonstram que, pelo encantamento, é possível mostrar a beleza e a importância da ciência

É possível recriar animais extintos a partir do DNA? Qual a função da flor na planta? Por que o sêmen e a urina não se misturam? Qual a doença que o caramujo transmite? Unhas e cabelos são formados por células mortas? Como identificar o sexo das aves como em tucanos e araras?

Perguntas, muitas perguntas – feitas por adolescentes entre 14 e 18 anos de idade – e muitas atividades experimentais e lúdicas para responder a tanta curiosidade. São vidrarias de laboratório, microscópios e modelos didáticos, misturados a muitas fantasias e diversão! É assim que, há mais de dez anos, estudantes do ensino médio de escolas públicas passam uma semana em laboratórios e salas de aula da Unesp, em Botucatu, para aprender ciência de forma dinâmica e interativa em cursos de férias.

A última edição dessas atividades ocorreu em janeiro de 2017, com a presença de cerca de 250 estudantes de escolas de Botucatu e outras cidades da região. Seguindo as palavras de Albert Einstein de que “não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas”, os cursos de férias “Experimentando Genética”, “Investigando a Vida das Plantas”, “Reprodução de A a Z”, “Do amarelão às picadas de cobra: um passeio pelas doenças tropicais”, “Virando a Célula do Avesso” e “A Ciência por trás das Jaulas e Gaiolas” baseiam-se nos questionamentos dos próprios estudantes. Ao final de cada curso, após mil e uma brincadeiras, experimentos, visitas didáticas, peças de teatro, músicas e pitadas e mais pitadas de bom humor (afinal, são “férias”!), os participantes se dão conta de que aprenderam ciência de forma não tradicional. E talvez nunca mais se esqueçam do que estudaram e vivenciaram na Unesp. “Eu achava que iam ser aulas normais, escrevendo e lendo, com a sala em silêncio. Mas eu estava completamente errada. Os monitores fantasiados, as gincanas, os passeios, tudo! O curso me mostrou que é possível aprender e se divertir ao mesmo tempo”, diz a estudante do Ensino Médio Maressa Christine dos Santos.

TRABALHO EM MÃO DUPLA – Docentes e alunos da Unesp em atividades conjuntas com estudantes do ensino médio. (© Acervo particular do Programa de Extensão “Difundindo e Popularizando a Ciência na UNESP”)

A coroação de todo aprendizado dos últimos cursos veio na forma de uma feira científica, onde os alunos do ensino médio apresentaram atividades experimentais. E com que orgulho os “monitores” dos cursos de férias – alunos de graduação e pós-graduação – puderam ver e ouvir seus aprendizes, com enorme seriedade e confiança, demonstrar o que haviam descoberto acerca de um tema científico. Quem esteve lá viu que o final desse processo de ensino-aprendizagem de mão dupla culminou em sorrisos e lágrimas de alegria, recompensa, amizade e carinho. Puro encantamento!

 

PARA MUDAR O SEU E O MEU MUNDO

Os docentes envolvidos com os cursos de férias querem mudar o mundo. Utópico? Nem tanto. Eles sabem que é possível, sim, mudar o mundo de diversos estudantes da rede básica pública. E não é uma questão somente de aprendizado de conteúdo. Sim, aprende-se, e muito, nos seis dias dos cursos de férias. São 48 horas de uma maratona de atividades. Mas o principal diferencial dos cursos é fazer com que esses estudantes olhem para si mesmos com outros olhos – com um olhar de quem pode ingressar na universidade pública, se assim o desejar.

Todo mundo é curioso por natureza. Sempre nos questionamos sobre as coisas do mundo que está ao nosso redor. Os cursos de férias têm o papel de estimular a disposição dos alunos para questionar e aprender. E de fazer com que acreditem em si mesmos e que podem ir além do que imaginam – como pessoas e como profissionais.

“Muitos deles pensam que a universidade não é pra eles. O curso dá oportunidade para experimentarem o que nós, alunos de graduação, já temos. Assim, eles podem decidir o que querem para o futuro sabendo que não é porque estudam em escola pública que não podem estudar na Unesp.” Palavras de Carla Martins de Brito, aluna de graduação da Unesp e que atuou como monitora nos cursos de férias. E o pensamento de Carla vai além, seguindo também os ideais dos docentes que coordenam essas atividades: “Depois dos cursos de férias, você sai com vontade de melhorar o mundo, se torna uma pessoa muito mais sensível, com uma melhor percepção, um olhar mais cuidadoso para o outro”.

Participar dos cursos de férias é encantador e transformador. Não são simplesmente transmitidos conhecimentos – trabalha-se com a construção do pensamento científico e a formação e transformação de cidadãos. Transformam-se o estudante do ensino médio e também os alunos de graduação e pós-graduação que atuam como monitores nas atividades desenvolvidas. Uma semana parece muito pouco para transformar pessoas, conceitos e quebrar paradigmas. Mas, nesse curto espaço de tempo, a valorização do pensamento científico é tão marcante que o ceticismo, a admiração, a curiosidade e o empirismo se tornam ações cotidianas. Soma-se a isso a valorização máxima das potencialidades pessoais de cada aluno, seja este do ensino médio, graduando ou pós-graduando. “As marcas deixadas por quem vivenciou os cursos de férias são permanentes”, diz Otávio Luis Paulo, doutorando na Unesp. Segundo ele, “a maior prova disso foi poder constatar, no fim das atividades, o brilho nos olhos dos alunos traduzido no despertar da certeza de que são capazes de realizar seus sonhos”. E o sonho deles não deixa de ser o anseio da Unesp, como universidade pública, de atuar também em inclusão social, cidadania e democracia.

 

JOVENS TALENTOS DA ESCOLA PÚBLICA

Até o momento, 1.529 estudantes do ensino médio, vinculados a cerca de 30 escolas da regional de ensino de Botucatu, participaram dos cursos de férias já realizados, tendo sido monitorados por mais de 800 alunos de pós-graduação e graduação. Em conjunto, alunos do ensino médio e da Unesp descobrem “o porquê das coisas” e o conceito do método científico. E o gosto e o encantamento pela ciência se tornam ainda mais presentes para diversos alunos que, ao terminarem os cursos, são selecionados, todos os anos, como bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – Ensino Médio (Pibic Júnior), vinculado à Pró-Reitoria de Pesquisa (Prope), para desenvolver um projeto de pesquisa, sempre sob a co-supervisão de estudantes de mestrado e doutorado. Essa experiência única, de fortalecer o processo de disseminação das informações e conhecimentos científicos ainda durante o ensino médio, foi vivenciada por 80 estudantes da rede pública.

Levando-se em consideração somente os alunos do ensino médio que estagiaram em laboratórios da Unesp, 42 destes ex-bolsistas do CNPq, chamados carinhosamente de “jovens talentos”, hoje encontram-se em cursos de graduação e pós-graduação da Unesp e de outras universidades públicas. E eles, todos os anos, voltam para os cursos de férias – agora no papel de monitores. O depoimento de Thiago Nascimento destaca o quanto as atividades realizadas podem cativar e trazer os jovens para perto da ciência. ‘’Ser aluno do curso de férias me deu a oportunidade de conhecer a ciência mais de perto, além de me proporcionar uma experiência mais que enriquecedora ao entrar no programa de Iniciação Científica Júnior, onde tive a oportunidade de vivenciar a rotina de um laboratório e realizar experimentos. Agora, como monitor, tive a chance de estar nos bastidores e acompanhar como tudo acontece, desde a preparação até a aplicação das atividades. Pude concluir que todo esse curso é baseado em companheirismo, dedicação e muito amor!’’

“Eu achava que cientista era aquela pessoa que faz experimentos malucos. Agora sei que cientistas estudam várias coisas e têm hipóteses para questionar e responder” (Aluno do Ensino Médio)

 

UMA FIGURA ENCANTADORA E INSPIRADORA

Ao longo dos agradecimentos da dissertação de mestrado de Cassiane Martins Barbosa, leem-se as frases “Ao Prof. Dr. Leopoldo de Meis pois, mesmo não estando mais fisicamente entre nós, suas ideias e pensamentos estão presentes. Agradeço por seu cuidado com a divulgação científica, de forma tão prazerosa e divertida. Se não fosse ele, talvez eu não seria o que sou hoje”. Cassiane é hoje mestre pela Unesp, atua como professora da rede básica pública e acaba de ingressar no doutorado. Foi um dos jovens talentos que participou da primeira edição dos cursos de férias e que não se esquece desse senhor que encantou gerações e gerações com seus gestos doces e suas ações extraordinárias de educação científica.

Figura excepcional dentro da comunidade científica brasileira e um dos pesquisadores mais respeitados na área de Bioquímica Médica, esse “carioca” singular, filho de italianos e nascido no Egito, batalhou incessantemente para tornar a ciência mais compreensível e abrir as portas da universidade a jovens de baixa renda. E foi pensando em uma simples questão de ciência – de que o cérebro precisa se emocionar para aprender – que, em 1985, Leopoldo de Meis, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), iniciou uma jornada que resultou na formação de uma rede nacional em que pesquisadores trabalham com ciência e arte com foco na educação básica – a Rede Nacional de Educação e Ciência: Novos Talentos da Rede Pública (RNEC).

Atualmente, a rede criada por Leopoldo conta com 32 grupos, vinculados a 20 instituições superiores de ensino e pesquisa distribuídas em 14 Estados do país. O principal objetivo da RNEC é buscar novos caminhos para um ensino de Ciências eficiente, dinâmico e atraente, por meio da realização de cursos de férias voltados para a rede básica pública, produção de materiais didáticos diversos, montagem de feiras e mostras científicas e oferecimento de estágios de pesquisa para estudantes do ensino médio. Seus princípios baseiam-se na concepção de que a ciência pode ser entendida como um caminho para o conhecimento e como prática social. A Unesp passou a integrar a RNEC em 2007, quando o primeiro curso de férias foi criado, no Instituto de Biociências. A ideia se ampliou, outros cientistas se apaixonaram pela proposta de expandir as atividades da pós-graduação para o ensino básico e assim foi criado o programa “Difundindo e Popularizando a Ciência na Unesp: Interação entre Pós-Graduação e Ensino Básico”.

Leia o artigo completo no site da revista Unesp Ciência

 

  • mai 2 2017